Alfabetização Audiovisual Porto Alegre

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        Em sua quarta edição, o projeto Mais Cinema tem como foco principal a questão da velhice, oferecendo uma programação de filmes que celebram a maturidade e o diálogo entre gerações. O tema escolhido procura dar protagonismo justamente àquela faixa etária da população que foi a mais atingida pela pandemia do novo coronavírus. Muitas famílias ficaram enlutadas ao longo dos últimos meses, e repentinamente crianças e jovens foram privados do convívio com seus avôs e avós. Ao propor essa discussão em um momento tão delicado, o Mais Cinema também valoriza a potência dos encontros intergeracionais, seja através de laços de família ou de amizade, em uma interminável troca de conhecimento que constitui o próprio sentido da existência.

        Sob o título geral de “O Velho e (é) o Novo: A Vida em Movimento”, o Mais Cinema 2021 está organizado em torno de três programas, “Viver”, “Aprender” e “Cuidar”. Cada programa inclui quatro curtas brasileiros, de várias épocas e gêneros (ficções, documentários, animações) e indicados a diferentes faixas etárias.

        O programa “Viver” trata da fugacidade da vida, mostrando que entre o nascimento e a morte, a existência corre como um rio, em ciclos que se repetem em um movimento de eterno retorno. A passagem veloz do tempo, e a sua inexorabilidade, estão representadas nos curtas “Vida Maria” (2007), de Márcio Ramos, e “A Velha a Fiar” (1964), de Humberto Mauro. Ainda assim, apesar da rotina, das dores, das dificuldades e da fadiga, nunca é tarde para viver intensamente, como mostram as protagonistas maduras dos curtas “Três Vezes por Semana” (2011), de Cristiane Reque, e “A Dama do Estácio” (2012), de Eduardo Ades, que trazem grandes atuações das veteranas atrizes Fernanda Montenegro (no primeiro), Irene Brietzke e Darlene Glória (no segundo).
O programa “Aprender” reúne curtas que revelam o quanto a maturidade traz experiência e acúmulo de conhecimento, sem contudo deixar de ser uma fase da vida ainda aberta a novos aprendizados, aventuras inusitadas, encontros e paixões. A força da memória está no centro do documentário “FotogrÁFRICA” (2016), de Tila Chitunda, em que a relação entre mãe e filha é mediada pela presença da fotografia. A infância e a velhice, o começo e o fim da vida, em uma troca geracional de mão dupla, sempre enriquecedora, estão retratadas nos curtas “Lipe, Vovô e o Monstro” (2016), de Felippe Steffens e Carlos Mateus, e “Dona Cristina Perdeu a Memória” (2002), de Ana Luiza Azevedo. O programa é complementado pelo inventivo “Quintal” (2015), de André Novais Oliveira, no qual um casal idoso, interpretado pelos pais do diretor, transita entre a rotina do cotidiano e o maravilhoso através de um portal no quintal de sua casa que os conduz a uma outra dimensão.
        Finalmente, o programa “Cuidar” apresenta quatro títulos que encenam situações relacionadas aos cuidados e atenções especiais com frequência exigidos na velhice. Seja pela doença, por limitações físicas ou pela sombra da finitude, essa condição de fragilidade traz profundas alterações no comportamento das personagens, fortalecendo laços de afeto entre os sujeitos, situação abordada pelos diretores Frederico Pinto e Marcus Vinicius Vasconcelos em duas animações de enorme carga poética, “Os Olhos do Pianista” (2005) e “Quando os Dias eram Eternos” (2016), e por Pedro Jorge e Eduardo Valente nos dramas familiares “A Navalha do Avô” (2013) e “Um Sol Alaranjado” (2001).
        A programação inclui também a exibição do longa-metragem “Aos Olhos de Ernesto” (2019), de Ana Luiza Azevedo. Após tratar da velhice em seu premiado curta “Dona Cristina Perdeu a Memória”, que integra o programa 2, a diretora volta ao tema em uma obra que confirma o seu domínio da linguagem cinematográfica, mostrando o encontro entre um senhor solitário e uma jovem de caráter ambíguo. A relação entre eles, a um só tempo tensa e bem humorada, irá provocar uma reviravolta decisiva no destino de ambos.

Marcus Mello
Programador do Mais Cinema

Em Porto Alegre, setembro de 2021

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